Uma casa que respira o Natal

Tadeu Fernando Ligabue

Adentrar à casa de dona Lourdes e Alberto Rosalin nesta época do ano, é respirar o mágico momento que o Natal nos propicia, elevando nossa alma para bem perto do sagrado. É a gostosa casa dos avós que todas as crianças mereciam ter na vida, ou, para que nós adultos e já um pouco embrutecidos pela vida, nos deixássemos novamente se encantar com o que a família representa de positivo quando a bondade está presente.

O casal Lourdes e Alberto Rosalin é muito conhecido dos leitores da Gazeta de Vargem Grande, pois há muitos natais eles participam da edição especial de Natal do jornal, compartilhando o presépio que montam em sua casa, na Rua Ricardo Zonta, 303, no Jd. São Joaquim.

Quem nos recebe na porta da casa é o senhor Alberto, com o andar um pouco curvado dado o passar do tempo, aos 83 anos que começam a pesar. O rosto nos parece familiar, pois certamente já nos cruzamos algumas vezes nesses anos todos em que mora em Vargem. Enquanto aguardo abrir a porta, consigo enxergar lá no fundo um quintal cheio de árvores e todo florido, o que me agrada muito.

Aberta a porta, reparo nos detalhes que envolve toda a casa, principalmente o clima de Natal que ela contém, pois não é só o presépio que se destaca, mas há toda uma áurea, uma positiva energia que dá vida às bolas coloridas, à árvore de Natal, mesmo que artificial, à fonte e outros enfeites delicadamente espalhados pela casa que nos remete à Sagrada Família e ao nascimento do Menino Jesus.

Me deixo envolver com todo aquele ambiente natalino. Gosto destas épocas, deste calor humano que nos faz refletir e ver mais belezas que tristezas no comportamento de nossa sociedade consumista e com tantas tragédias que nos envolvem, agora mais intensificadas com a internet.

O casal chamou a reportagem da Gazeta de Vargem Grande para apresentar o presépio, como fazem há alguns anos. A pretensão era escrever sobre o mesmo, mas foi tomando outros contornos. Indagando um pouco mais sobre a vida de Alberto Rosalin, nos disse que reside na casa há 22 anos e que cuidou do Poliesportivo da Vila Santa Terezinha como funcionário público municipal por cerca de 17 anos, até se aposentar.

O presépio nos chama a atenção pelo esmero e cuidado com que foi por ele construído. Passa a nos contar então a história de como se envolveu com presépios e apesar de já ter sido exposta em matéria anterior do jornal, vale a pena repeti-la com mais detalhes. Afinal, somos também contadores de histórias e toda história que envolve o Natal, sempre é mais prazerosa para nós contá-las.

Às vezes a memória falha um pouco e nessa hora, dona Lourdes ajuda, pois com ele compartilhou toda uma existência. De família tradicional e muito conhecida em Vargem Grande do Sul, a Família Rosalin, lembrou nosso entrevistado que morou até a juventude na Fazenda Barro Preto, da família Benaglia, de onde saiu aos 14 anos para morar em Vargem.

Foi lá na roça, numa casinha de colono, onde o chão era de terra batida, que o senhor Alberto teve o mágico contato com o presépio de Natal. Ainda era menino e guarda a lembrança de dona Maria, moradora da casa que tinha o hábito de construir um singelo presépio e convidou o menino para ajudá-la.


“Ela colocava uma mesinha no cantinho da sala, tinha um monjolo que o filho dela havia construído e para encher o mesmo de água, dona Maria colocava uma lata de 20 litros contendo água no alto, fazia um furo e colocava uma rolha. Quando as pessoas iam ver o presépio, ela tirava a rolha, a água escorria, enchia o monjolo fazendo-o funcionar e parecia que o presépio ganhava vida própria”, nos contou com detalhes.


Era uma época sem acesso aos bens feitos ou industrializados, como temos hoje. As imagens do presépio eram feitas de barro e o senhor Alberto aprendeu a confeccioná-las. “Todos os anos era eu que fazia as imagens. Só eu ela chamava, eu era o escolhido”, comenta com um pouco de orgulho do seu feito, uma vez que na colônia era cheio de crianças.


Assim, com o barro que ele mesmo fazia, dava forma ao Menino Jesus, aos reis magos, São José e também aos animais, como as vaquinhas, bois, burrinhos. “Tudo de barro que eu mesmo batia e fazia, as imagens não eram pintadas, era tudo rústico”, lembra das passagens que aconteceram há cerca de 70 anos atrás.


O humilde presépio fazia sucesso, a colônia era grande, mais de 30 famílias, sem falar as pessoas de outros sítios e fazendas que vinham para ver o presépio, colocar as conversas em dia. Era um acontecimento na época na vida do local, relembra.


Mudou-se então para a cidade e trabalhou em vários empregos, em cerâmicas, teve bar e depois foi convidado pelo prefeito Alfeu Rodrigues do Patrocínio para tomar conta do recém construído ginásio poliesportivo da Vila Santa Terezinha. Foi lá, na casa construída pela prefeitura ao lado, que voltou a montar seus presépios de novo.


Já tinha a companhia de dona Lourdes e dos filhos que nasceram. Dona Lourdes também veio da roça, morava na Fazenda Fartura, no município de Vargem e veio para a cidade trabalhar e conheceu o senhor Alberto, estando casados há 60 anos, tiveram quatro filhos e vários netos.


Reiniciou fazendo seus presépios de acordo com o que tinha aprendido com dona Maria, lá na Fazenda Barro Preto, dedicando mais a fazer o monjolo, as casinhas, igrejinhas, manjedoura, o celeiro. Os personagens já não precisavam serem feitos mais de barro, pois comprava as peças prontas.


Lembra de um truque para fazer o monjolo funcionar com a água, que intrigava as pessoas que vinham visitar seu presépio. “Coloquei uma talha de água velha, cheia e com uma torneira que era ligada ao monjolo. Cobria a talha com papel pedra e disfarçava bem. Quando as pessoas estavam entretidas vendo o presépio, eu abria a torneira por debaixo do papel, sem que ninguém visse e começava a jorrar água e fazer o monjolo funcionar”, conta com um ar de criança.


Para o senhor Alberto, montar o presépio o enche de prazer. “Começo lá pelo dia 10 de novembro, vou estudando, vendo como posso fazer diferente, os netos, os filhos ajudam”, comenta, nos colocando a par de como o Natal começa a adentrar em sua casa. Dona Lourdes também se entusiasma. É dela o restante das decorações natalinas da residência. Em cada olhar em uma parede ou móvel, pode-se notar um detalhe da presença do nascimento de Jesus na casa. “Acho que é uma benção de Deus, faço com muito amor e carinho. Natal é muito querido por todos nós. É a presença de Deus em nossa casa”, afirma.

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